Escalada de violência no Extremo Sul da Bahia expõe perseguição ao povo Pataxó
- IDEAS AP

- 19 de mar.
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Em fevereiro deste ano, um caso envolvendo duas turistas baleadas em Prado, no Extremo Sul da Bahia, dominou as manchetes da imprensa e ganhou repercussão nacional. O episódio foi utilizado para criminalizar os povos indígenas, sem considerar o contexto dos conflitos permanentes na região.
Essa região — onde se iniciou a colonização brasileira — enfrenta uma escalada de violência marcada por disputas de território. Nesse cenário, ganha força o Movimento Invasão Zero, grupo ruralista formado por grandes fazendeiros e proprietários de terra, que atua de forma articulada, inclusive com influência em casas legislativas, para pressionar pela criminalização dos movimentos sociais e das lutas indígenas por território.
Após o caso de Prado, a situação se agravou. Lideranças indígenas passaram a ser alvo de operações policiais, resultando em prisões e mandados em aberto. Atualmente, ao menos cinco indígenas estão privados de liberdade, entre eles os caciques Suruí e Aruã. Na prática, essas ações atingem diretamente as chamadas retomadas — estratégia de ocupação das terras ancestrais utilizada pelas comunidades, devido à morosidade nos processos de demarcação de terras.
Diante desse cenário, organizações indígenas denunciaram uma série de violações. Em nota conjunta, o Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoiba), o Conselho de Caciques do Território Barra Velha do Monte Pascoal e o Conselho de Lideranças e Caciques do Território Comexatibá relataram a prisão arbitrária de indígenas no Extremo Sul do estado. As entidades também contestam a versão amplamente divulgada pela mídia sobre o caso das turistas baleadas em Prado, afirmando que o povo Pataxó não tem relação com os disparos.
Segundo a nota, indígenas foram mantidos sob condições desumanas enquanto aguardavam depoimento, e houve uma articulação envolvendo agentes políticos, setores da imprensa e forças de segurança para responsabilizá-los publicamente, mesmo diante da ausência de provas e de inconsistências geográficas que inviabilizariam a versão dos fatos. De forma orquestrada, cresce a disseminação de desinformação que tenta rotular os povos indígenas como “invasores” ou “criminosos”.
Demarcação e escalada de violência

Pedido de socorro pixado em uma parede na Aldeia Nova, na TI Barra Velha, Extremo Sul da Bahia/Leandro Barbosa/ISA
Mesmo com avanços recentes, como a homologação da Terra Indígena Aldeia Velha e as portarias de demarcação de Comexatibá (Cahy-Pequi) e Tupinambá de Olivença — anunciadas durante a COP30 —, a perseguição contra lideranças indígenas se intensificou.
Em nota, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) confirmou que “a Terra Indígena (TI) Comexatibá, na região de Prado (BA), já foi declarada de posse permanente do povo Pataxó pelo Ministério da Justiça em novembro de 2025, por meio da Portaria nº 1.073”, e informou que o processo de demarcação segue em curso, atualmente na fase final, aguardando homologação. O órgão também detalhou que o procedimento inclui a demarcação física do território, etapa essencial para a consolidação do direito à terra.
Para os povos originários, no entanto, o avanço das demarcações tem sido acompanhado por uma escalada de ataques articulados por fazendeiros, vista como a continuidade de práticas racistas e uma tentativa de inviabilizar direitos constitucionais.
Os dados reforçam a gravidade da situação. A Bahia ocupa a 4ª posição entre os estados com maior número de assassinatos de indígenas no país. De acordo com o relatório “Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil”, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), foram registradas no estado 23 das 211 mortes ocorridas no país em 2024, além de 10 conflitos territoriais graves, incluindo o que resultou na morte da pajé Nega Pataxó, na região de Potiguará, sul do estado.
Mais do que estatísticas, os dados revelam um cenário em que a violência e a criminalização caminham lado a lado, enquanto os povos indígenas seguem resistindo para garantir direitos que já lhes pertencem por lei e por história.




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